Não-Formas

Face à crescente complexidade do mundo atual e à proliferação de estruturas físicas e virtuais cada vez mais intrincadas e incompreensíveis, despontam-se sentimentos de inquietude e desassossego. De certa forma, o múltiplo e o indefinido, na sua complexidade, tornaram-se simultaneamente a solução e o problema da atualidade. Fica então a incerteza do que pode resultar desta aproximação ao indefinido tanto pelo homem como pelos seus sofisticados mecanismos, e se esta representará uma tendência para uma maior abertura ou maior dissimulação da realidade.

Não-Formas, video 5', som por André Covas, imagem e texto por Carmo Azeredo (Serra da Estrela, Portugal), 2017
Fotografias de Carmo Azeredo, 2017

Jan. 2018, Open Studio Campanice, Porto.
Dez. 2017, '15 Minutos de Fama', 7ª edição, Extéril, Porto.






– Porque te inquieta este momento em que, finalmente, o mundo se começa a reconhecer como imensamente indefinido, múltiplo e não linear.

– Não sei bem.
Por um lado fico contente que se deixem cair suposições de fórmulas universais
e aspirações de omnisciência.
Esse homem moderno que tudo pode não passa, afinal, de um mito.
Mas receio que, se a conformidade com o indefinido passar a ser a regra, certas formas negativas irão suceder também.
Principalmente nos dias que correm.
Ao familiarizarmos o indefinido, podemos familiarizar também uma certa alienação da vontade de perceber como é que certas coisas funcionam, e que implicações resultam delas.
Se nos convencermos que certas coisas são demasiado indefinidas e complexas, podemos desistir de as querer compreender, deixando que elas simplesmente aconteçam.
Em especial coisas grandes e complicadas.
Coisas que nunca param.
Coisas que se transformam em híper-coisas.
Coisas como a banca, a internet, a meta data...
Estruturas tão expandidas que já nem lhes reconhecemos os contornos.
Não-formas.
Não-formas que na sua complexidade, multiplicidade e constante oscilação, são tão impraticáveis de conhecer que se tornam impossíveis de zelar por.
Não-formas com tantas implicações e tão intrincadas nas nossas estruturas sociais, económicas e políticas, que se tornam impunes.
Que se tornam imunes.
E tudo isso na era do individualismo, em que facilmente nos retraímos para o nosso universo pessoal, permitindo ainda mais espaço para que estas não-formas cresçam desequilibradamente.
Não penso que alguma vez alguma coisa tenha de ser completamente compreendida ou controlada, mas andar à mercê do indefinido deixa-me inquieto.







Nada voltará a ser o mesmo, 2017